ESTUDOS

FERNANDO PESSOA E SEU CONTEXTO HISTÓRICO

Por Leon Cardoso da Silva[1]

O início do século XX foi marcado por grandes transformações sociais, políticas e literárias. Na noite de 3 para 4 de outubro de 1910 diversas forças militares e civis portuguesas se rebelam contra a monarquia. Após muitos combates estas forças saem vitoriosas e dois dias depois proclamam a Primeira República portuguesa. Isso resultou na “construção” ou fortalecimento de um clima de profundo nacionalismo e de rupturas que vinham ocorrendo em Portugal, sobretudo, no século XIX quando parte da população almejava uma mudança de regime político. Assim, Portugal no início do século XX foi marcado por intensas turbulências políticas que impactaram a sociedade e influenciaram diversas manifestações artísticas e literárias.

Em 1914 a Europa e o mundo ficaram abalados por causa da deflagração da Primeira Guerra Mundial. Mais precisamente em 4 de agosto, deste mesmo ano, chega a Portugal a notícia da declaração de guerra da Inglaterra à Alemanha devido esta última violar o tratado de 1831 que declarava a Bélgica como território neutro naquela região. Entretanto, Portugal só entra de fato na guerra em 1917 quando no dia 2 de fevereiro suas tropas chegam a Brest, porto da Bretanha, rumo à frente de batalha na Flandres francesa.

O modernismo em Portugal teve início em 1915 quando veio a lume uma importante revista que criou um cenário novo e polêmico nas letras portuguesas. Intitulada como Orpheu esta revista – embora de curta duração, pois como se sabe foram produzidas apenas duas edições – tinha como principal objetivo, além de oferecer uma alternativa econômica mais acessível para os leitores, pois, os livros eram praticamente artigos de luxo pela questão do custo financeiro, a revista buscava realizar certas rupturas com temas da tradição literária. Inevitavelmente, com características inovadoras o modernismo português movia-se entre herança e memória, inovação e ruptura. Daí resulta o fato da revista ter sido combatida por alguns intelectuais, uma vez que, numa perspectiva moderna de inovações, apresentava alguns conteúdos incompatíveis com a cultura que vigorava no país conservador.

Foi exatamente neste contexto sócio histórico que Portugal viu surgir Fernando Pessoa, o poeta português mais festejado desde Camões e um dos maiores de todos os tempos.

No que diz respeito ao aspecto biográfico podemos dizer que Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de Julho de 1888. Aos cinco anos de idade ficou órfão de pai e, dois anos depois, viajou para Durban, na África do Sul após sua mãe casar-se pela segunda vez. Este fato é bastante relevante porque ainda na África, em 1901, Fernando Pessoa escreve seu primeiro poema em Inglês, língua a qual lhe rendeu prêmios durante o período em que estudou em colégios de freiras e em Durban High School, recebendo educação inglesa. E essa influência da língua inglesa foi tão intensa que, entre 1902 e 1908, Pessoa compunha seus versos e prosas somente nesta língua – só a partir dos 20 anos de idade é que passou a escrever em sua língua materna.

Em 1915, liderou um grupo de jovens escritores – Mário de Sá-Carneiro, Almada-Negreiros, Luís de Montalvor e o escritor brasileiro Ronald de Carvalho – e fundou a revista Orpheu, aqui já mencionada. É bastante interessante observarmos a relevância das revistas para o contexto literário português daquele período porque ficou bastante comum a definição de duas vertentes do modernismo português a partir de duas grandes revistas: a Orpheu e a Presença.

À medida que a Orpheu privilegiava as ideias de renovação futurista e de liberdade de expressão e criação literária, a Presença posteriormente buscou aprofundar estas perspectivas, mas com grande influência da psicanálise freudiana ao difundir a valorização de aspectos psicológicos, intuitivos e de criatividade individual. Com outro olhar, podemos entender que estas revistas eram vitrines, pois o público leitor além de ter mais facilidade de acesso econômico a outro meio de divulgação literário, serviram também para a divulgação de textos e manifestações artísticas diversas, fato este que fortaleceu e difundiu muitos movimentos de vanguarda.

Na Orpheu, por exemplo, Pessoa publicou os poemas “Ode Triunfal” e “Opiário”, ambos assinados por seu heterônimo Álvaro de Campos, e escandalizaram a sociedade conservadora. Isso fez com que reações críticas violentas apontassem os autores desta revista como “loucos” e “insanos”. Entretanto, isso não foi uma exclusividade de Portugal, pois em outros países as mesmas rupturas que outros escritores modernos propuseram também foram recebidas com reações semelhantes.

Posto isso, já não é difícil de compreendermos como ocorreu a influência entre Fernando Pessoa e seu contexto histórico. Assim como outros escritores, Pessoa foi influenciado por inúmeros aspectos contextuais e universais, tendo este último como conhecimento literário e desenvolvimento criativo individual do próprio autor ou do próprio fazer criativo que é característico de cada escritor ou obra específica com a prerrogativa de estarem dentro de um contexto histórico-literário.

Não podemos esquecer que a Orpheu veio a lume em 1915, portanto, em meio a sangrentos conflitos da segunda guerra mundial. Não era de surpreender que justamente nesta revista Pessoa tenha publicado dois poemas de seu heterônimo Álvaro de Campos em sua fase mais pessimista. No poema “Ode triunfal” podemos observar os seguintes versos:

(…)

Olá anúncios elétricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.

(…)

“Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos / Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos”. Diante de uma modernidade que busca avançar para o progresso há um pessimismo dos sujeitos portugueses ante a iminente participação do país nos conflitos armados da guerra. Este paradoxo que sai dos versos de um heterônimo e envolve diretamente o escritor autor em sua própria pessoa, em sua própria visão de mundo confunde-o com sua criação, personagem que o imita ou que é imitado por ele.

Já em o “Opiário”:

(…)

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

(…)

“É antes do ópio que a minh’alma é doente. / Sentir a vida convalesce e estiola”. Neste poema, o autor propõe uma fuga da realidade. Um tipo de busca por uma realidade artificial que supere o risco e a vacuidade existencial, “Por isso eu tomo ópio. / É um remédio / Sou um convalescente do Momento. / Moro no rés-do-chão do pensamento / E ver passar a Vida faz-me tédio”. Em alguns momentos talvez isto se confunda com o próprio Pessoa, ortônimo.

Entre outras características, este poema aborda também um tema bastante específico do contexto social português do início do século XX. “Volto à Europa descontente, e em sortes / De vir a ser um poeta sonambólico. / Eu sou monárquico, mas não católico / E gostava de ser as coisas fortes”. Pessoa foi um crítico da I República. Esta se tornou muito violenta e isso deu margem para o golpe que, realizado em 1926, havia feito duas promessas: a de justamente acabar com a violência na república e dar início a ações para criar uma “nova dignidade constitucional”. Fato este que fez com que nosso poeta apoiasse o golpe, mas este o frustrou por não realizar a segunda promessa.

Após esta breve leitura podemos entender que Pessoa não foi autor somente de muitos poemas relevantes – o que já o tornaria grande dentro da literatura e da cultura portuguesa. Foi antes autor de um extenso e coerente projeto literário. Disso surge a sua principal criação literária: seus heterônimos. Cada heterônimo por si próprio representa uma faceta distinta de um mesmo autor. Mas não simplesmente faces diversas, mas faces que se moldam para em conjunto formar um todo coerente e pensado nos seus pormenores.

Assim, surgiram os heterônimos: Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, cada um com sua história e estilo próprio. Diante de cada tendência literária específica Pessoa produz assumindo as identidades de seus heterônimos. Com isso, surge a compreensão de que o poeta português foi autor de um imenso e relevante projeto literário coerente.

Em vida, Pessoa deixou um livro publicado “Mensagem”. Foi uma obra que ele escreveu como ele mesmo (ortônimo) assumindo em seu nome a autoria dos poemas. Costuma-se classificar este livro a partir de duas perspectivas distintas, mas não antagônicas: a lírica e a saudosista-nacionalista.

No que diz respeito à lírica, diversos são os poemas que seguem nesta linha. No poema “Mar português” o poeta escreve: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas / mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / (…) Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena. / Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor”. (…) O mar representa as conquistas e as vitórias portuguesas embora esta tenha ocorrido em meio ao sofrimento dos navegadores e de suas famílias que ficaram olhando a imensidão do mar, na espera ansiosa do regresso. Bojador era o nome dado a uma região que fica no Marrocos, que nas grandes navegações ficou conhecido como Cabo do Medo devido ao fato de muitas embarcações não conseguirem ultrapassar. Noutra perspectiva, podemos dizer que de acordo com o poema devemos ultrapassar nossos medos e dores para realizarmos nossas conquistas e realizações.

Com relação ao aspecto saudosista-nacionalista, não é difícil de compreendermos que seus primórdios conceituais surgem com a própria perspectiva modernista. Embora o modernismo português tenha se voltado para características mais abrangentes da Europa, a própria ideia modernista já é por si de valorização do ideal de nacionalidade.

No poema QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL o poeta faz uma homenagem saudosa e nacionalista a D. Sebastião, último rei da dinastia Avis que tinha o sonho de conquistar Jerusalém para o catolicismo. Sabe-se que este rei sumiu após intensas batalhas para conseguir seus objetivos. Após um terço do exército português ser destruído, procurou-se o rei e este não foi encontrado. A este desejo de conquista, Pessoa se questiona: D. Sebastião queria grandeza? Ele seria um “louco” ou um sonhador? À primeira questão, nosso poeta português responderia pela afirmativa, a segunda diria facilmente que D. Sebastião era um sonhador. Se, por exemplo, substituirmos as palavras “louco” no primeiro verso da primeira estrofe por “sonho” ou “sonhador” podemos perceber mais diretamente este aspecto de homenagem e saudosismo.

 

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

 

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

 

Mas a loucura ainda assim aqui é vista de forma positiva pelo poeta. Ora, “sem a loucura” o homem poderia ser classificado como um “cadáver adiado que procria”. Isso divide o poema em duas partes, exatamente como estão postas as estrofes seguidas de versos irregulares com rimas ricas e pobres predominando o ritmo binário com rimas cruzadas e emparelhadas. Na primeira estrofe o sujeito se caracteriza como louco que de tão certo a própria certeza não lhe cabe. Na segunda estrofe, o poeta faz uma espécie de divulgação e valorização da loucura a ponto de afirmar que outros a tomem e deem continuidade aos seus anseios de conquista e de grandeza. Outros poemas se seguem neste mesmo tom apontando para aspectos de valorização da identidade nacional portuguesa.

Postumamente os poemas de Pessoa (ortônimo) foram reunidos e publicados em diversas coletâneas. Dentre os que se destacam está um bastante significativo intitulado como “Autopsicografia” onde trata do fazer poético e da verdadeira intenção do poeta.

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente

 

Nesta primeira estrofe, o poeta apresente a ideia fundamental do poema, quando, usando uma metáfora, classifica o poeta como fingidor “O poeta é um fingidor”. Obviamente isso não quer dizer que ele seja um mentiroso “finge tão completamente”, mas que consegue se colocar no lugar do outro “que chega a fingir que é dor” e reproduzir para este os sentimentos que ele capta “a dor que deveras sente”, embora ele, o poeta, não necessariamente esteja sentindo no momento em que produz o poema.

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm

 

E quando o leitor lê o que o poeta escreve “E os que leem o que escreve,” pode experimentar a dor ou emoção “Na dor lida sentem bem,” derivada da interpretação do poema, não necessariamente a mesma emoção do poeta “Não as duas que ele teve” no momento em que ele fingiu ou sentiu ao escrever o poema “mas só a que eles não têm”.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

 

Nesta estrofe o poeta utiliza a linguagem para fazer uma alusão entre o coração e a razão. A função do coração é entreter a razão, cabendo ao poeta utilizar esta última como mecanismo de transformação do sentimento (emoção) em experiência (intelectual ou racional) de criação literária.

Como já foi explicitado, Pessoa foi um poeta de seu tempo. Sua obra, como a de outros poetas, é marcada por seu contexto histórico. Este fato faz com que uma obra literária precise da análise do contexto na qual ela está inserida para o alcance de uma compreensão mais próxima da verdade. Disso parece surgir, portanto, um dos postulados mais significativos para a teoria literária que se iniciou ainda no período modernista de inovação e de liberdade estética.

Fernando Pessoa faleceu aos 47 anos na mesma cidade em que nasceu (Lisboa), em 30 de novembro de 1935 deixando um dos maiores projetos literário de todos os tempos. Mas como eu mesmo, nos momentos raros de sublimação poética quem sabe inspirado por Pessoa, escrevi: “poeta”, como Fernando Pessoa, “não morre. Apenas passa para um estado versificado”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENTRELAÇAMENTO DE MUNDO, DE COISAS E DE BICHOS

 

A aparência sensível do sensível, a persuasão silenciosa do sensível é o único meio de o Ser manifestar-se sem tornar-se positividade, sem cessar de ser ambíguo e transcendente.

Merleau-Ponty

 

A suscetível busca pela essência de algo que seja dotado de uma sensibilidade aparente e que traga em seu bojo de ser/coisa uma condição ensimesmada de existir,  em uma argumentação ambígua e transcendente, nos faz compreender o mundo-vivido, enquanto morada e estranhamento de homens, de coisas e de bicho.

Quando Evan do Carmo me sugeriu escrever algo acerca das susceptíveis e impressionantes poesias pessoanas percebi que “Eu era um poeta animado pela filosofia, não um filósofo com faculdades poéticas. Eu adorava admirar a beleza das coisas, delinear– imperceptivelmente através do assombrosamente pequeno- a alma poética do universo”.

Assim, ao me deparar com as minudências trazidas por Leon Cardoso, cujo texto se coloca em função de portal/abertura desta obra intitulada O Poeta é um Fingidor, entendi que, igual Evan do Carmo, só almejaria uma coisa: “Escrever como um tal Fernando. Um esquizofrênico consciente que em meio a tanta solidão se superou e deu vida a muita gente.” Contudo, ouvindo de Everton Medeiros que “O tempo tirânico (…) fustigas o tempo todo” quis ser amigo de Pessoa “Mas não velhos amigos, tampouco amigos velhos, seríamos dois novos amigos vivendo num único momento. Entretanto, tão logo intui ao meu peito tal amizade, Valmar Pedro esclareceu que “Foi apenas um limar, um aperfeiçoar, um lapso numa folha mal traçada”.

Com uma entonação de voz ponderada, Iranete  Pontes me ensinou a esconder “o clarão do dia no bolsinho” da minha calça e “com fio de sol dourado”, que “aponta num horizonte distante, com um toque frio de brisa” tomei o tempo por sobre minhas mãos e comecei a “contagem de seus ponteiros marcando os passos do caminho”.

Ainda entretido com o tempo, olhando sua iluminadora por entre os dedos das mãos em  côncava concha, Lina Correia me chamou dizendo que tinha “desejos causticantes e fantasias alucinantes” e, enfaticamente determinou que “daqui a pouco mandarias me chamar (…) para de novo me embriagares” com os seus “vinhos cor de sangue” e de “volúpias sem fim”, que, segundo Lina, eu iria “para além de mim”.

Afoito às insurgências de vida, chamei Ederson Marques e juntos “lá pelas 4”, percebemos um passarinho “sendo certo um sabiá” em um “cantar (…) macio assim como o veludo”. “Sem falta, sem atraso” Jari Zamar “de repente, apareceu” e, com o seu Coração Renitente “toda lição foi esquecida”, ficando toda a palavra suspensa. E “por não saber o rumo certo, juntei palavras, teci versos, na mais profunda ingenuidade” e a Jari “ofereci lindas canções” que havia composto inspirado em Airton Souza, que sabe, como ninguém, “a importância das borboletas”.

Desta forma, “arraigando os hediondos passos antigos” em um percurso “de abandonados dias”, aprendemos novas lições de vida. E mesmo sob a tragédia do existir-existindo, que nos impõe “armadura tingida de aço” e uma “deambula tristeza (…) nos hilários olhos”, tomamos a vida sobre nossas mãos e “das sombras das pedras” olhamos firme o horizonte, certos que “a primavera sempre vem”, e por certo traria suas experiências de flores ao inóspito solo de nossos jardins existenciais.

Com isso, apressadamente me pus a escrever este entrelaçamento de mundo, de coisas e de bicho que o olhar de Pessoa tão bem expressou, pois sabia que: “A poesia está em tudo – no mar e na terra, no lago e na margem do rio. Está na cidade também – não o neguem – isto é evidente para mim, aqui sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; há poesia no ruído dos carros nas ruas, em cada minuto, cada momento comum, no movimento ridículo do trabalhador, que, no lado oposto da rua pinta a placa do talho.”

De imediato soube, sem pestanejar ou se alargar no mundo em busca de apreços habituais que deveria re_visitar os rios de minha aldeia/alma/existência “Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma.”

Compreendi que necessitaria ir à procura de um entendimento de margens que o Tejo/mundo jamais proporcionaria, pois sempre estaria “atento ao que sou e vejo, torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo é do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem;  assisto à minha passagem, diverso, móbil e só, não sei sentir-me onde estou. Atento ao que sou e vejo, torno-me eles e não eu.”

Deveria ir em busca do Tejo não em razão dele não ser o rio que corre pela minha aldeia, mas pelo fato de suas águas (e margens) estarem presas em um sentido coexistencial de significado e não em gestos de significância,  suscitando uma facticidade temporal de Rio em suas estreitezas in_orgânicas de leitos: “Noto à margem do que o que julguei que senti. Releio e digo: ‘Fui eu?’ Deus sabe, porque o escreveu.”

O tributo proposto por Evan à múltipla Pessoa de Fernando nos coloca, intencional e acintosamente, em uma confrontação à nossa própria corporeidade de ser-no-mundo incrustrada em uma medula óssea do não-existir-existindo. Desta forma, igual o lisboeta, instiguei-me a “tornar minha vida grande, ainda que o meu corpo tenha de ser lenha desse fogo.”

Esta frase de Pessoa se insurgiu como algo fundamental para discutirmos o próprio (u)mano em sua distinção de angustia/inquietude e consolo/conforto, nesta paradoxal indagação de existir-existindo, pois viver é um processo dolorido, tanto que Pessoa disse: “Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói, Declina dentro de mim o sol no alto do céu. Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos. Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar? Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata, Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo, Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés, Calcar, calcar, calcar até não sentir. Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis, Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.

À medida que as pessoas/bardos trovadores (em-si-sós sonhadores) falam de Pessoa/vate prosador (por-si-só desafiador), contribuem sobremaneira para que se tenha uma compreensão ontológica do lisboês mais amado e/tão/quanto afamado. E fazendo isto, não se definem pela soma de suas características e sim pelo que lhes assoma e irrompe em translúcida poética, demonstrando assim uma irredutível habilidade (e inaudita unidade) pelo sobrevoo da escrita, casa e morada, ninho e abrigo, nuvem e dossel de todos os poetas.

A escolha pelo título “O poeta é um fingidor” remete, de sopetão, sem qualquer nuances cambiantes, a uma representação autopsicografada da verve poética fernandiana, que traz consigo infinitas Pessoas “Vivo-me esteticamente em outro”, ora desvelando, ora embaciando, em um processo de percepção humano contínuo, motivando os seus leitores (de época pretérita e tempo presente) a compreender o mundo (e o outro) sem batismos sacrificiais.

Encarando os ensaios do mundo, das coisas e dos bichos não como uma simulação do real, mas enquanto metáfora em uma escansão de existir. Em carta de 1935, direcionada a Casais Monteiro, o fingidor Pessoa fala: […] pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples.”

Considerando a capacidade psicológica de Pessoa, que transforma os seus sentimentos e expressa suas ideias nos apontando um metha/morfo caminho de distinta criação, nos colocando entre o sujeito e a ideia que o sujeito traz de si-e-do-mundo, enquanto ser-no-mundo, em seu existir-existencial, compreendemos a razão sensível de sua transcendência, que desagua em nós em formas de dores, tanto a real/sentida quanto a ideal/fingida, interpretando a intersubjetividade humana com in_dissoluta maestria, sincronicamente composto de uma atribuição que infere ao sujeito ser solução ou impasse de sua própria experienciação humana em sua expressão mundana de existir.

Pessoa aborda o nosso Devir em ‘saltos’ organismicos, se comunicando  (plástica e estética) em um desdobramento perceptivo que nos salta aos olhos. É possível tocarmos em sua inter_corporeidade poética, roçá-la, beijá-la, apalpá-la, escarafunchá-la ao seu mais interno avesso, estabelecendo com ela uma comunicação sensível, em um entrelaçamento atemporal e desafiador, nos convidando a tomar parte de seu inter_mundo, nos levando a sentir a forma, a cor, a sonoridade, a textura, os sabores, os aromas, os olhares e as imagens de sua inter_poética em um mergulho ontológico sem precedência de tempo, ordem ou lugar.

As diferenciações propostas por Fernando (e sua(s) indissociável(is) Pessoa(s), transita entre o ser-e-o-nada, o existir-e-o-não-existir, o in_terno e o ex_terno em uma busca de um sistema de significações de vida que possibilite novas e reveladoras descobertas do ser-no-mundo e do mundo-no-ser, consubstanciando um olhar para si e para o outro livre e além.

As questões discutidas por Pessoa, pelos saberes de sua inter_subjetividade poética em linhas reflexivas e introspectivas, postula-nos, ora a criação, ora a des_construção, nos colocando em um entrelaçamento de mundo, de coisas e de gente que envolve o leitor (ouvinte) a uma investigação constante de ser: “Narro indiferentemente a minha biografia sem factos, a minha história sem vida”.

Descrevendo uma particularidade na escrita descomunhal, que transborda às nossas vidas em um desmantelo de vida inquestionavelmente singular, Fernando apresenta uma transcendência em seus versos, apontando o seu próprio desassossego de existir. Desassossego este que o leva a confidenciar “Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vômito para aliviar a vontade de vomitar.”

Em um apodegma (aforismo) assistemático, Pessoa se descreve em uma inexpressabilidade que amolda o mundo em nosso peito no tamanho de um gemido “…a minha vida, absurda como um relógio público parado.

Direcionando seus questionamento à vida e ao ser, em versos  de profunda significância, Fernando nos fala: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada”, contudo, ante o pessimismo aparente, consegue emitir um Ode Triunfal à sua in_complectude de ser com os sonhos postos no futuro, o levando a dizer: “À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Portanto, quem ousa a se colocar um pouco acima da linha limitrófica que separa a superficialidade cognitiva da capacidade de reflexão compreende que, a cada instante (e verso) se torna habitual a identificação do poeta com sua poesia, do Fernando com a sua Pessoa e a referência das pessoas que compõem o “Poeta é um fingidor” com a Pessoa do Fernando.

Percebe-se então que a intencionalidade fernandiana se destina tanto ao ver quanto ao sentir, possibilitando uma ampliação de linguagem empática entre o leitor e o autor, numa iminência de começo e finitude, justificando a escolha pelos versos como matéria de conversação de gestos e afetos, enraizando no vazio do ser o seu atolamento congênito, em uma alteridade poética que (conforme Friedrich Nietzsche) “cada um escolhe a verdade que consegue suportar.

 

Alufa Licuta Oxoronga

Psicólogo e Poeta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AMAR É…

 

Nelson Marzullo Tangerini

 

Também fui poeta um dia. E, quando fui um sonhador, embriagado da poesia modernista de Fernando Pessoa e de Drummond, escrevi isto:

 

“Quero encontrar um amor que me faça esquecer

o compromisso com a morte.

Porque amar é vida,

porque amar é alongar os dias,

é superar a morte,

é atrasar o compromisso com a morte,

é enganar a morte.”

 

Estranho isto. Até parece que o espírito de Camões, com suas anáforas, andou a me trazer inspiração. Joguei o restante fora. Fiz como manda João Cabral de Mello Neto. O resto era enfadonho, redundante demais. Guardei apenas estes versos, este miolo. Talvez um dia eu os reescreva. Ou simplesmente acrescente mais coisas – no início ou no fim.

Mas – confesso – estou pensando seriamente na vida que o amor nos dá; neste “fogo que arde sem se ver”, que nos inflama, nos infla e nos faz esquecer do término da vida.

Camões, “Pai da língua portuguesa”, pai de todos nós, poetas e lusófonos, sonetista rigorosamente no metro e na rima, caçoaria de meu verso modernista.

Abandonei, então, a poesia. Segui os caminhos trilhados pelo Machado de Assis cronista, por Nelson Rodrigues, por Nestor Tangerini, por Maurício Marzullo, por Rubem Braga, por Fernando Brant, por Affonso Romano de Sant´Anna, por Marina Colasanti, entre tantos outros que admiro – alguns, famosos; outros, nem tanto; outros, não.

Longe de mim querer superar essas feras. Estou aprendendo a escrever crônicas todos os dias para algumas revistas e alguns jornais e isto tornou-se uma prática prazerosa. Os fatos acontecem diante de nossos olhos – na rua, no ônibus, na escola, em casa. Fatos nos chegam através da televisão, do rádio, do jornal, da revista, da internet. As palavras aparecem, nos instigam: é o milagre da multiplicação das palavras.

Mas eu falava do amor, da vida e da morte. E acabei falando da feitura da crônica. E acabei escrevendo uma metacrônica.

Andei pensando numa poesia, Trivial Simples, que escrevi, após ler O eu profundo e os outros eus, de Fernando Pessoa:

 

Não gosto de mim

quando estou apaixonado.

 

Não gosto de mim

quando troco a poética

pela emoção.

 

Gosto de mim

quando estou único

livre

sóbrio

sólido

na solidão

 

A poesia está diante de mim

quando, pela minha lente,

avisto o outro mundo.

 

Gosto de mim assim,

não como assim,

como estou agora:

preso a este eu

que não vai embora.

 

Intrigava-me o verso de Pessoa: “… ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho”. E daí escrevi Trivial Simples, dentro de um ônibus em movimento. Porque eu amo a solidão, ao mesmo tempo. Mas “o poeta é um fingidor”. Eu posso fingir que quero a solidão, posso fingir que quero estar “livre como um pássaro”, porque posso fingir que posso vencer a morte com um grande amor. Porque, na verdade, quero vencer a morte – com as palavras – com amor universal.

Camões, Pessoa, Machado, Braga, Tangerini venceram a morte. Venceram porque as poesias e as crônicas escritas lhes deram vida eterna. Simplesmente amaram o que fizeram. Camões amou Natércia e a pátria portuguesa; Machado, Carolina; Pessoa, Ophelia; Tangerini, Dinah.

A “Paixão medida” é salutar. Amar é alongar os dias, é tornar os dias mais claros, mais azuis, mais mar. “Amar se aprende amando”, diria o gauche  itabirano Carlos Drummond de Andrade.

 

Nelson Marzullo Tangerini, 62 anos, é escritor, poeta, compositor, memorialista e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro do Clube dos Escritores Piracicaba, onde ocupa a Cadeira 073 – Nestor Tangerini, da UBE, União Brasileira de Escritores, da UNE, União Nacional de Escritores, e da ALB, Academia de Letras do Brasil, e da ABI, Associação Brasileira de Imprensa.

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Professor, pesquisador, poeta e crítico literário. Possui graduação em letras vernáculas e especialização em estudos linguísticos e literários.

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